sexta-feira, 10 de junho de 2011

Grupos, cotas e o estúpido proselitismo racial



É legítima e importante a formação de grupos sociais. Após identificarem uma semelhança, mesmo que mínima, as pessoas aproximam-se e formam grupos diversos. Decidem, desde a criação, defendê-lo com unhas e dentes. Assim nascem as famílias, as tribos, certos direitos, cidades e até países.

Desde sempre, há homens e mulheres. Negros, brancos, índios, pardos e amarelos. Existem os grupos cristãos, os muçulmanos, os judeus e os ateus, graças a Alá e a Deus. Vascaínos e flamenguistas, sambistas e roqueiros. Tem também o americano, o africano, o asiático e o europeu. É certo que teremos terráquios e marcianos em alguns séculos. O mundo gira e muda, incansável, com tantos modos de vida diferentes quanto o número de indivíduos que o habitam. O que não muda é a insistência em rótulos, muitas vezes baseados apenas em pequenos detalhes. Parece instintivo o desejo de se unir por qualquer que seja a causa.  

O Brasil é um país, como qualquer outro, formado por diferentes grupos. Dizem que o diferencial aqui é que a variedade deles foi maior que a de outras nações em formação. Talvez seja por isso que nosso país vive dias de intensas lutas grupais. Alguns alegam que são lutas sociais, o que evidentemente nem chega perto de ser. Esses grupos fazem uma baderna sem tamanho com as idéias, em um verdadeiro desfile de proselitismos egoísticos e amargurados. Leia esta extraordinária síntese do cenário atual, pelo Jornalista Reinaldo Azevedo:

“O estado está sendo tomado de assalto por minorias organizadas que pretendem impor a sua pauta, independentemente da vontade da maioria e de suas instâncias de representação. É assim em todas as áreas. Os Verdes de Marina Silva acham que o Congresso não tem de se meter com meio ambiente porque isso é coisa de sua militância; os gays organizados acham que os educadores e os héteros não têm que se envolver com o material anti-homofobia porque isso é coisa de sua militância; os negros organizados acham que os não-negros não podem participar do debate de cotas porque isso é coisa de sua militância; mulheres organizadas defendem que o aborto seja decidido em plebiscito por mulheres porque isso é coisa de sua militância; os maconheiros organizados acham que os não-maconheiros não tem legitimidade para debater a descriminação de drogas porque isso é coisa de sua militância”.

É uma verdadeira torre de Babel. Grupos e mais grupos, uns legítimos, e outros não. O que difere estes daqueles, certamente, é o motivo social de sua luta. Senão vejamos. Se um partido político promove embates entre idéias de direita e esquerda, o grupo é legitimo. Se, entretanto, promove brigas e motins em praças públicas, promovendo o caos pela intolerância democrática, o grupo é deslegitimado.

Se os gays organizados lutam contra o preconceito ou buscam direitos de família, formam um grupo legítimo. Porém, se tentam fazer-se de vítimas de uma sociedade, de acordo com eles imoral, ao mesmo tempo em que tentam transformarem-se em cidadãos superprotegidos, o grupo é deslegitimado. Da mesma forma, quando brigam pela implementação da propaganda de sua sexualidade nas escolas. Não me causaria espanto algum se aparecesse alguém, em breve, propondo cotas para gays em concursos públicos.

Os maconheiros organizados pro-legalização... Esses são deslegitimados até quando não formam grupo algum. A briga do grupo é pela legalização, pela criação de um mercado lícito. Nem os viciados em cigarro se utilizam do mercado lícito, quanto mais os maconheiros (o tráfico de cigarros paraguaios chega a ser maior que o de maconha). E o mais importante, o caos no trânsito, que causa um número absurdo de mortes de jovens apenas com o álcool não faz parte da discussão pela legalização. O que importa mesmo é o direito a uma lombra após um baseado e uma pseudo liberdade de expressão. 

Os negros organizados, quando resolvem brigar contra o racismo ou promovem movimentos culturais, são grupos fortes e admiráveis. Quando, porém, passam a brigar por cotas e dedicam a vida tentando cobrar do Estado uma tal de "dívida racial histórica", chegam a causar mais transtornos que os maconheiros do "legalize já".

Aliás, o que se passa na cabeça deles? Quem, afinal, é negro nesse país? De onde veio a adequação dessa tal expressão "dívida racial histórica"? Argumenta-se que o grupo de negros escravos é o credor, e o Brasil, todos nós, os devedores. Ora bolas, essa argumentação tem uma falha insanável, pois é impossível identificar-se o credor.

Há quem diga que o grupo de negros é identificado pela cor de pele. Ficticiamente criemos, nesse caso, uma escala, e apropriadamente chame-mo-la de algo como dermapigmentômetro, de forma a tentar definir esse grupo. Esta escala consiste na fixação de uma gradação de cores. A cena fictícia é a seguinte: o cidadão vai se inscrever no vestibular, concurso, fila de sopa ou qualquer outra atividade, e será obrigado a encostar o braço ao lado da escala, mostrando que tem a tonalidade mínima exigida para a inscrição. 

Funcionaria? É evidente que não. Seria interessante observar a busca por partes do corpo mais escuras no dia das inscrições (lembre-se do quão sua bunda é branca). E outra, o branquelo que banha de sol por uma semana no litoral piauiense atingirá a cor mínima facilmente. Talvez isso tenha ocorrido recentemente. Na UNB, um indivíduo conseguiu entrar em um curso universitário através de cotas raciais, enquanto o seu irmão gêmeo não conseguiu.

Dizem que negro é quem possui o DNA de um negro. Vejamos. Qualquer pessoa possui quatro avos, 8 bisavos, 32 tataravos. Em menos de um século, qualquer pessoa tem em seu sangue a carga genética de trinta e duas pessoas. E não duvide, mesmo que seja alguém de olhos azuis e branco gelo, a probabilidade de ter um negro por aí é bem grande.  Aumente essa mistura para 500 anos, e então, aproximadamente, teríamos a carga genética de 33 milhões de tataravôs (se duvida, faça os cálculos!). Não é mais questão de dúvida, mas um juízo de certeza que, a maioria esmagadora da população, tem o DNA de negros.

Dizem também que negro é quem se declara negro. É assim que se classificam hoje em dia, e é assim que será feito na recente decisão populista do governor do Rio de Janeiro em destinar 20% das vagas de concursos públicos a negros. Qualquer um pode ser negro, desde que diga que é negro. Parece eliminar todas as hipóteses absurdas supracitadas. Mas se uma morena rosa charmosa, filha de avôs negros, se declarar negra, vai receber olhares de reprovação. É isso o que essa atitude proporciona. Na impossibilidade de determinar-se quem é ou não é, o Estado deixa para que os que se declaram negros a tarefa imoral e a ridicularização popular.

O outro aspecto da tal dívida racial histórica, refere-se ao seu conteúdo: a escravidão. Ora, então também forçaremos o Estado a pagar todo o aluguel atrasado dessas terras aos índios, afinal, ocupamo-las há meio milênio! A Igreja também deveria devolver todo o dinheiro de terras vendidas no céu! Os gregos, cheios de ciência e filosofia, foram massacrados pela Roma impiedosa. Roma tem, então, uma dívida histórica com a Grécia e com o mundo, exijamos então que a Itália resgate os gregos da crise econômica! E com os judeus... isso não tem fim. 

E por fim, o termo “racial” me parece mais do que inapropriado. Quem tem raça é animal, é cachorro, é cavalo, é bicho. Homem não tem variação de raça, todos são homo sapiens sapiens. Imagine, a cor de pele, um mero pigmento protéico, definir uma raça. Talvez um olho ou um nariz diferentes impliquem em mais diferenças genéticas do que a cor da pele. De forma que seriamos obrigados a definir a raça baseadas em todas essas coisas. Pode ser a raça pela altura, que nem se faz com o pequinês e o dog alemão, ou a raça dos olhos azuis e dos olhos pretos. A raça dos gordos e dos magros ou dos cabeçudos e dos carecas.

A verdadeira e única dívida brasileira é com a isonomia e com o desenvolvimento, e consequentemente, contra a pobreza. Dívida que ainda é contraída, a cada dia, enquanto o mesmo Estado que paga um salário para um servidor, paga sessenta a outro. O estímulo à diferença começa pelo funcionalismo público. Combate-se o racismo e a injúria racial com a ridicularização e punição aos racistas, que cometem um crime imprescritível, e não estimulando a diferença com cotas discriminatórias e usando argumentos chulos, prejudicando os demais. 

Usar o racismo como argumento para se criar grupos superprotegidos é uma afronta a um estado que pretende ser isonômico. É tolice, além de incentivador à falsa afirmação de que há desbalanço de oportunidades, quando os únicos que podem alegar isso são os pobres. Até isso deve ser expressado com as devidas ressalva. Além de tudo, é um desrespeito com tantos ditos negros que, ignorando qualquer preconceito, são referências em quase todos os ramos da sociedade.

O preconceito é brega, é tosco, é ridículo. A única coisa pior do que ele, é usá-lo para se beneficiar em situações que exigem o mérito pessoal. 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Educação sem cidadania: isso virou moda no Brasil

Quando procuramos por raízes para os problemas sociais, a Educação, despida de seus diversos braços, surge como solução para todos os problemas. Nem preciso argumentar que isso é verdade, embora seja mais um daqueles casos em que falar genericamente sobre o tema não gera, nem de longe, um discurso produtivo.

Nesta última semana a discussão sobre o tema se acalorou, ao serem publicados os índices educacionais do Brasil, comparados com os de outros países. Vem a tona a questão de quem o Estado considera como bem sucedido, educacionalmente falando. Se quem for bem educado é sinônimo daquele que terminou as atividades escolares, tem um curso superior, uma pós, um mestrado e pretensões de fazer um doutorado, acho que o Brasil vai muito bem. Aliás, quantas faculdades surgem a cada dia, não é?

Nem preciso polemizar ou ser sarcástico, é evidente que esse não é um índice válido, apesar de sê-lo erroneamente na cabeça de muitas pessoas. Afinal, quem não tem um colega ou conhecido, formado até mesmo em letras-português, que escreve, por vezes, como um analfabeto funcional? Não é pondo os conhecimentos em língua portuguesa como referência educacional absoluta, o que acho um erro comum cometido por muitos brasileiros, mas é concluindo que muitos não possuíam os pré-requisitos para realizarem certas atividades, mas mesmo assim o fizeram. Mas isso não é o tema central deste post.

Na verdade, em tempos de discussão intensa sobre o assunto, quero mais é chamar a atenção para outro tipo de parâmetro, mais subjetivo, e muito importante. Me refiro ao desconhecimento da cidadania, e a falta de instrução para o seu efetivo exercício, situação persistente em quase todo o sistema educacional brasileiro.

Afinal, por que tantos acadêmicos sequer sabem a diferença entre um deputado federal e um senador, ou mesmo quais as funções destes? Quantos sabem o que é uma autarquia ou uma fundação pública? Quantos sabem qual a função do Ministério Público, ou sequer desconfiam que é algo totalmente diferente dos Ministérios do Governo Federal? Quantos sabem quais os seus direitos políticos? Quantos desconhecem os seus direitos, mas cobram por mudanças nas leis, que muitas vezes ja são da forma como querem que seja? Quantos vêem o processo eleitoral como algo supérfluo? Quantos desconhecem os limites dos poderes do Estado, achando que ele tudo pode, ou desconhecem o que é a separação dos poderes? Quantos sabem sequer o que é a Constituição, e qual a diferença para uma lei ordinária?

São muitos e, surpreendentemente, não são apenas os “mal educados”. O meio acadêmico atual é tão direcionado e específico que faz parecer que o exercício da cidadania é algo a parte, um tema a ser abordado apenas em certas circunstâncias. E quando me refiro a meio acadêmico, me refiro a todos os níveis. Mestres e doutores, tagarelando bobagens políticas e pregando revoluções principiológicas impossíveis nos corredores das principais universidades do país, é algo mais comum do que se imagina. Grande parte resume suas criticas a generalizações descriteriosas e populistas, apenas para impressionar aqueles de igual ou inferior mentalidade, com idéias que já nascem mortas.

Ao mesmo tempo em que perguntas como as do parágrafo acima, para muitos apenas tolices, são negligenciadas, as pessoas “bem educadas” em geral cobram pelos seus direitos e deveres, mas sem saber a qual ouvido deve ser direcionada suas reclamações. Por vezes, vítimas de violência, clamam por leis mais duras, muitos cobram penas perpétuas e de morte, sem ter uma idéia mínima do tamanho da discussão institucional e do tema, além da reformulação de grande parte dos princípios do nosso ordenamento jurídico, e não apenas uma discussão populista e pessoal. Outros cobram uma melhoria salarial, mas não tem idéia do que é um orçamento público e de como mudá-lo, ou a qual esfera administrativa pertence a responsabilidade pelo seu pagamento. Tantos sequer lembram em quem votaram, mas criticam a corrupção dos governantes, ou desconhecem as formas de combatê-la.

Nesse último caso, a situação beira o ridículo. O processo eleitoral é caótico. O voto proporcional, que valoriza a legenda partidária e que já é incompreendido pela população em geral, parece perder o valor com tantos casos de mudanças partidárias e até mesmo de criação de partidos novos, por politicos em plena atividade administrativa. As pessoas votam em legisladores que prometem obras e serviços como se fossem do executivo, e votam no executivo que promete incríveis mudanças legislativas. Situação que favorece as manipulações e a ascenção dos incompetentes.

Nesse panorama, é mais do que evidente que não adianta cobrar mais educação, e insistir no modelo atual. As pessoas vão se educando, mas de que adianta tantos especialistas sem uma adequada conduta política e social? De que adianta formar um físico, um médico, um engenheiro ou qualquer outro profissional, e estes não saberem as regras do jogo? 

Em um Estado Democrático de Direito, todo e qualquer passo da Administração é normatizado. Ao contrário de nós, administrados, que temos o direito de fazer aquilo o que a lei não proíbe, a Administração somente pode fazer o que é regulamentado. A legalidade, então, assume papel vital nas relações sociais, tanto verticalmente, nas relações do cidadão com o Estado, quanto horizontalmente, nas relações entre os indivíduos.

Do orçamento, dos direitos e garantias fundamentais individuais e coletivos, dos estatutos, do direito de comércio, dos impostos, tributos e subsídios, do direito civil, do emprego, da contabilidade e da economia, do direito penal, etc. Qualquer relação deve ser legal, constitucional e internacional, em alusão as diversas normas brasileiras, suas hierarquias e aqueles direitos vinculados por tratados internacionais. No direito penal, especificamente, a lei é até severa com os “mal-informads”, onde em seu artigo 21, o código penal brasileiro afirma que “o conhecimento da lei é inescusável”.

É assim, você se defende dos atos imputados, mas é punido pelos atos normatizados, mesmo que não tenha idéia prévia de que aquele ato seria intolerável pelo ordenamento jurídico. Em tempos em que fumar um baseado é um ato que não gera punição efetiva e emitir dolosamente cheque sem provisão de fundos é crime que pode ser apenado com até cinco anos de reclusão, as pessoas podem confundir-se um pouco. Incesto, por exemplo, não é crime, mas usar uma senha irregular em um sistema de informações público e inserir dado falso para obter vantagem ilícita é crime que possui uma pena maior que a de roubo qualificado, e pode te deixar mais tempo na cadeia que um homicídio doloso. Quem imagina?

É dizer, o que custa inserir o direito penal como fundamento em qualquer ano do ensino médio, como um verdadeiro ato de prevenção contra o crime? O que custa termos disciplinas de direitos e deveres fundamentais, ou estudarmos as estruturas do Estado e da Administração, presentes na Constituição? Seria impossível uma visão global sobre a organização estatal e sobre a estrutura da Administração pública? Não seria mais interessante o processo eleitoral com o devido conhecimento do que é, do que faz e do que pode fazer cada elegível? Realmente faz sentido impor o estudo da patinha dos aracnídeos como obrigatório, e o conhecimento dos direitos e deveres como opcional?

É mais do que evidente, na sociedade como um todo, a deficiência no exercício da cidadania. O historiador, ao término de sua formação, certamente fez cálculos com cônicas em álgebra, ou estudou como ocorrem certas reações orgânicas, em detalhes, mas talvez nunca assistiu a algum debate sobre leis em sua faculdade. Da mesma forma o matemático, que certamente já estudou literatura medieval inglesa e a oração subordinada adverbial causal, provavelmente nunca tenha ouvido falar sobre o seu direito a impetrar uma Ação Popular, ou mesmo quais as funções de um Senador. Posto isso, fica claro que não são somente os alunos da base, mas também os doutores e afins que “terminam” seus estudos sem o devido conhecimento de cidadania. Por vezes, expressam nojo pela palavra política, sem desconfiar que ela tem um significado bem maior do que apenas sua visão carente de fundamentos. 

Em uma busca pela raíz da raíz do problema educacional em comento, verifiquei nas leis brasileiras uma possível lacuna legislativa, em vão. A começar pela Constituição Federal, que em seu artigo 1, inciso II, que elege a cidadania como um dos fundamentos de nosso país. Ao analisar mais especificamente, a Lei de Diretrizes e Bases da educação, que ao orientar o currículo do ensino médio, em seu artigo 36, inciso I, garante o acesso ao conhecimento e ao exercício da cidadania.

Onde está o erro então? Será então questão de cultura, manter as pessoas desinformadas e desinteressadas, para que não possam lutar por mudanças efetivas? Será um desinteresse da Administração em manter o processo eleitoral sempre tão confuso? Creio que não. Muitas mentes tem o poder de mudar isso, e tenho a certeza de que é um processo que ocorrerá, cedo ou tarde, sendo esse mais um caso de inércia administrativa.

Não adianta insistir na educação, e persistir no conteúdo atual ministrado aos alunos. Muitos são importantes, mas ao mesmo tempo supérfluos. Esse paradoxo existe pela pluralidade de funções, onde é impossível a todos uma visão criteriosa de tudo, respeitando-se as diferentes funções. É de todo evidente, pelo menos, que o conhecimento e o exercício da cidadania não devem ser postos de lado, assim como vêm ocorrendo dolosamente no atual sistema educacional brasileiro.

domingo, 8 de maio de 2011

Marcha pela sem-vergonhice



Toda a idéia desse post é proveniente de um desconforto que tive, há algum tempo, ao assistir uma edição do programa Altas Horas, da rede Globo. No referido programa, um músico qualquer pé-rapado jamaicano gemia cantava suas músicas, e durante um quadro chamado “eu protesto”, aproveitou a fama e a graça do momento para tocar em um assunto que ia muito além de sua competência e capacidade intelectual: a legalização da maconha no Brasil.

“Protesto contra as leis que proíbem o uso da maconha no Brasil, aqui deveria ser legalizado”, dizia o enxerido. E aplausos e gritos moderados de uma juventude cheia de energias para gastar em micaretas surgiu. É de bom tom ressaltar aqui que não fico revoltado com os aplausos a essas tolices, penso que isso é mais uma questão educacional do que de cidadania propriamente. Fico chateado mesmo é quando os que aplaudem passam a ter voz. A maior quantidade de bobagens e idéias tortas de cidadania surge quando aqueles que fazem apologia a maconha tentam explicar o inexplicável.

Primeiramente, por que a maconha? Por que não a marcha pelo loló, ou pela cocaína? É por que é a droga mais barata? (isso nao procede) Afinal, o tipo legal não faz referencia a maconha, lsd, heroína ou o escambau. O tipo legal faz referência a droga, e droga é o que consta na portaria SVS 344/98 do Ministério da Saúde como droga. Se você é um ativista pró-maconheiros, que reúna, além dos motivos fenomenais usualmente empregados (provavelmente pensados enquanto você fumava um baseado), razões que diferem a maconha de qualquer outro entorpecente.

Ora, esse é o primeiro problema dessas manifestações tão esdrúxulas. Aqueles que pedem pela legalização da maconha “esquecem” de pedir também pelas outras drogas. Isso, pois, vou ignorar completamente os argumentos de que é uma substância diferente, do bem, que maconha tem vitamina C, faz bem para a próstata e degenera regenera neurônios. Até onde eu sei, “vitaminas” e substancias medicamentosas existem até em veneno de cobra. Do ópio, por exemplo, foi extraída a heroína, e milagrosamente também a morfina.

Outro ponto que me causa muito desconforto, é ouvir o clichê opinativo que toma de conta dessas passeatas. O raciocínio regressivo utilizado pelos maconheiros e afins em geral é quase unânime e espanta em simplicidade: maconha legalizada = fim do tráfico = fim da violência. Esse raciocínio matemático aplicado ao social mais me revela uma preguiça mental do que uma conclusão coerente. A maconha é plantada aqui mesmo. As mulas e o transporte em barcos e aéreos de cargas medidas apenas em kilos trazem todos os dias quantidades absurdas de cocaína, que é muito mais rentável para o tráfico (com a maconha, teria que se passar com toneladas pelas fronteiras). Além do que, até parece que o usuário de maconha so usa maconha mesmo. Seria até cômico ouvir daqueles que mais tagarelam a palavra “hipocrisia” comentarem algo do tipo: “eu fumo maconha, mas nunca vou experimentar cocaína, essa nao pode”. Um recado: leitor-maconheiro, utilize qualquer argumento, mas não se exima da responsabilidade de que o(a) senhor(a) patrocina o tráfico de drogas e a criminalidade em nosso país, independente do valor que você dá ao ponderar o prazer do uso e as mazelas desse ato.

O vocalista da banda Detonados, o Tico, tornou público ontem o que pensa de quem discorda da legalização: “Acho uma hipocrisia uma sociedade tabagista e alcoólatra condenar o uso da maconha. Para mim, quem é contra a legalização é a favor do tráfico de drogas". Não, Tico. Você, que põe seus prazerezinhos de merda à frente de graves problemas institucionais, é quem é a favor desse crime. Você, que compra ilegalmente esse entorpecente, financiado pelos maiores traficantes de drogas, armas e pessoas, é quem patrocina a violência das grandes cidades. Não abre mão de um vício estúpido em prol de uma vida humana, por que vive no mundo das idéias. E além de tudo, o seu argumento é mais fraco que o dos demais.

O tabagismo e o alcoolismo são outros dois graves problemas no Brasil. O que o vocalista argumenta, usando suas próprias palavras, é: “dane-se, a gente ja ta na merda mesmo, vamo afundar ainda mais essa porra”. Caro, os problemas sociais causados pelo uso excessivo do álcool vão desde problemas de saúde pública, onde pessoas abandonam suas vidas progressas para “viver” do vício, abreviando suas vidas e causando sofrimento aos familiares, até como uma das principais causas indiretas de mortes no país.

Abro um parêntese, pois esse problema necessita um pouco mais de minha atenção. É divulgado anualmente um balanço das principais causas de mortes por grupos no país, e para fins de conclusões observei os dados divulgados pelo jornal
O Estadão. No Brasil, as mortes por acidentes no trânsito so perdem para doenças cardiovasculares e homicídios, e entre as mulheres, é a segunda causa de morte. E qual a maior causa de acidentes de trânsito no país? O álcool. E é por que nossa legislação criminalizou a conduta, e dirigir com qualquer concentração de álcool superior a 6 decigramas por litro de sangue já enquadra a conduta do motorista na esfera criminal. Pelo menos para o álcool temos o bafômetro, e com a maconha? Teria que existir o maconhômetro.

E qual a diferença entre o álcool e a maconha então? Culturalmente, muitas. Mas do ponto de vista prático comentado nesse post, nenhuma. Os dois são mazelas entorpecentes, e devem ser combatidas. Sou até fã de de uma cervejinha, mas no dia que isso for considerado crime, abriria mão numa boa. É preciso ponderar o que desejamos para nós e, ao mesmo tempo, comparar com os benefícios coletivos de certas condutas. Você pode até argumentar que cerveja nunca fez mal a você, e que sabe dirigir “nas manhas” mesmo depois de tomar uma grade. Mas imagine quantos não sabem, ou quantos acham que sabem. É por isso que a lei existe, para limitar por baixo, para que as condutas sejam padronizadas e os riscos coletivos sejam minimizados. Meu prazer pessoal é irrelevante quando existem coisas mais importantes em jogo.

Quem dá um teco também argumenta muitas coisas boas, altas viagens, deve ser fodástica a experiência. Mas e os vários que sofrem de amnésia, imergidos no vício e incapazes de comprar o baseado mais caro das elites, sustentando o vício com furtos e roubos? É por eles que a lei existe, e não por meia dúzia dos que possuem empregos prósperos e controlam seus hábitos para que não virem vício. E esse raciocínio se aplica a quase qualquer entorpecente. Todos tem sua parcela de prazer e de malefício, onde a qualidade e a quantidade surgem como fatores determinantes.

Essa similaridade põe todos os entorpecentes sob o mesmo prisma, e torna a marcha pela maconha uma luta sem argumentos. Peço perdão ao leitor, mas me ponho mais uma vez a especular: e se a maconha fosse, por uma fatalidade do destino, legalizada? Nem penso muito em todas as implicações sociais e de saúde pública que relatei, mas no rumo disso tudo. Será que os maconheiros se sentiriam satisfeitos com a maconha? Afinal, se a cocaína tem sua parcela de benefícios também, em quanto tempo haveria uma luta pela sua descriminalização também? Já imaginaram, isso vai ao infinito, pois de substâncias psicotrópicas o mundo ta cheio, surgindo novas e mais potentes a cada dia.

A sociedade como um todo busca prosperidade, hábitos saudáveis e respeito ao direito do próximo. O uso de drogas entorpecentes vai ao encontro disso tudo, independente de qual seja ela, pelo fato de tornar reduzidas as noções de limites, sendo estes mais facilmente desrespeitados. Especulei no parágrafo anterior apenas para fazer o arremate do meu argumento:

Senhores maconheiros e afins, peço que tenham mais colhões, e lutem por aquilo que vocês realmente querem, que é a legalização de todos os tipos de entorpecentes. É evidente que a sua luta atual é sem sentido e sem-vergonha. Lutem por um mundo cheio de paz, amor, e muita lombra pra vocês curtirem, até que todos virem zumbis, e aí então teremos uma discussão mais honesta, onde pelo menos saberemos exatamente o que vocês querem. Mas até lá, cuidado, suas condutas atuais são criminosas e intoleráveis na esfera penal.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Teorias da conspiração: morte e vida de Bin Laden



A rede terrorista Al-Qaeda é extremamente complexa, cheia de coordenações, braços e seguidores. Responsável por alguns dos maiores atentados terroristas da história, é uma ameaça permanente e concreta a quase qualquer bom adjetivo que reflita qualidade de vida, não somente aos Estados Unidos, mas a todos.

A guerra, por outro lado, é uma contrapartida aos atos de terror. Não se gasta cifras que percorrem os trilhões de dolares americanos (o PIB de alguns países do G8) em guerras com objetivos fúteis. Quantias desta magnitude, porquanto não justificam, de alguma forma refletem o empenho e que tipo de valores estão sujeitos a supressão, como argumentos favoráveis aos direitos humanos ou simples argumentações de vingança (como se a morte resolvesse todos os problemas).

Sim, foi noticiado, de algumas várias formas, que Osama Bin Laden foi morto. E esse é o primeiro ponto a ser comentado. Nesses momentos é que algumas pessoas gostam de ecoar, como papagaios, as expressões “ética” e “direitos humanos”. Nem preciso ressaltar que são, na maioria das vezes, pessoas que vêem tudo bem de longe, onde as palavras valem bem mais do que ações. Ou talvez no lugar onde tenha validade o imperativo categórico de Kant, antagônica à suposição de que se Bin Laden tivesse matado, decaptado ou explodido “os meus”, minha opinião seria diferente.

Por sorte, mesmo no Brasil, alguns direitos fundamentais mais fundamentais podem ser suprimidos, como na decretação de Estado de Sítio, em caso de guerra declarada. Guerra é guerra, e o inimigo é um potencial ofensor enquanto tiver poder de destruição, armado ou não. Osama, vivo e algemado, certamente tem mais poder de destruição do que morto. Não é cabível a ele nem contraditório, nem ampla defensa. É como um flagrante de crime permanente, e matá-lo, armado ou não, não é nada mais do que inexigibilidade de conduta diversa, ou legítima defesa, tanto faz.

Se Bin Laden fosse capturado, sendo apresentado algemado ao vivo pela CNN para o mundo, sem o seu gorro árabe e sem barba, o que aconteceria? Claro que é apenas especulação, e por ela cada um de nós (inclusive a CIA)especula, de forma a tomar suas decisões, antevendo os passos dos inimigos, das massas, dos aliados e ignorando inteligentemente os ativistas extremistas pro-direitos humanos, por uma causa maior. Eis as minhas especulações:

Se Osama fosse apenas capturado, penso que seria muito mais revoltante para a rede terrorista do que se ele estivesse morto, com suas 70 virgens e curtindo uma vibe com Alá. Ja vi a Al-Qaeda sequestrar e decaptar civis por muito menos do que isso. E cá para nós, fazer mal a civis é de uma tremenda facilidade. Mal faz quem quer, e essas pessoas, cidadãos dos EUA e aliados na guerra ao terror, estão espalhados pelo mundo, mesmo sem ter uma milionésima fração de poder de decisão ou responsabilidade pela guerra deflagrada. Vejam por exemplo no Brasil, portas escancaradas ao tráfico de armas, drogas e pessoas patrocinado pela inércia (quem falou desrespeito?) administrativa, que ao invés de aparelhar, decide sucatear o órgão responsável pela patrulha das fronteiras (Polícia Federal). Agora, lembrem-se de quantos americanos vivem no Brasil, ou melhor, de quantas delegações americanas, inglesas, francesas, etc., virão ao Brasil nos proximos 5 anos... prato cheio para as mentes perversas.

Alguns argumentam que vivo ou morto, os seguidores de Bin Laden irão fazer o mal do mesmo jeito. E vão fazer mesmo, independente de terem cortado ou não o Bilau da rede terrorista. Mas até onde eu sei, o mal feito pelos terroristas é sua moeda, seu poder de barganha. E com a morte do líder, eles não teriam mais ou menos poder de ação, a não ser seu desespero em tomar atitudes puramente maldosas, o que nem mesmo os terroristas pensam que fazem (pasmem, mas é verdade). Pelo menos evitou que um monte de radicais xupetas apareçam com embaixadores, soldados, jornalistas, garçons, etc., americanos sendo decapitados com vídeos postados no youtube após exigências absurdas de troca de prisioneiros. Deixe que transijam com o inferno agora.

Mas tudo bem, Bin Laden não morreu, pelo menos não da forma como foi noticiado. Essa é a minha opinião, em uma análise mais ponderada dos fatos. Lembram-se dos motivos fúteis de uma guerra? Pois é, vingança é, dissimuladamente, o mais fútil dos motivos. Quando o presidente americano diz em seu discurso que a justiça foi feita, ele blefa, blasfema ou bosteja (ato de jogar bosta com argumentos), como preferir. O objetivo da guerra não é matar Osama, mas neutralizar o terror. É sabido que Osama, hoje, é uma peça, e não o todo.

Para enfeitar o blefe, argumenta que o corpo, nunca mostrado, foi enrolado em uma túnica branca e jogado ao mar, em uma tentativa de justificar o sumiço da prova cabal de suas palavras, aliada a uma tentativa de argumentar um pseudo-respeito às tradiçoes religiosas do desafeto (isso é sério mesmo?). Vários líderes do Islã, opositores de Osama, vieram a público argumentar que esse respeito foi digno, mas ao mesmo tempo foi uma bobagem, onde “o que importava era que Osama tinha sido morto”.

E provavelmente está morto mesmo, dentro de um porta aviões, depois de uma semana de tortura intensa. É uma das poucas opções que um serviço de inteligencia inteligente teria, para que essa captura de Osama realmente tivesse frutificado algo importante. Osama é peça central, mas a Al-Qaeda é grande e estruturada. Torturar o chefe, e solicitar a ele que entregue a posição de todos os seus braços direitos e coordenadores, é uma jogada genial. E melhor ainda, se o isentar de comunicação e dar a ele a idéia de que será julgado em um tribunal de exceção, para que tenha mais esperança de que vai ser um mártir se continuar vivo. Até a Al-Qaeda caiu nessa, anunciando hoje que realmente seu líder foi morto, quando apenas constatou que ele sumiu do mapa. Talvez não se preocuparam em mudar as posições dos sub-chefes, que podem ser pegos de surpresa nos próximos meses.

Ao ignorar os Fragas do Afeganistão, defensores radicais ferrenhos dos direitos humanos de terroristas, tornando público que o objetivo da ação foi mesmo matar Osama, fica anulada uma briga maior contra esses indivíduos que sofrem de cegueira institucional. Pelo menos as bobagens que eles argumentam apenas divagam sobre uma execução sumária e fictícia. Imagine o que eles argumentariam se suspeitassem que Osama ja teve todos os olhos e dedos cortados.

Parabéns, CIA. Vocês tem minha admiração (não que isso valha muita coisa). Que os seguidores de Osama Bin Laden continuem o seguindo, e desçam com ele direto para o inferno.